E Depois do Vírus? Os Perigos Pela Frente

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Resistência em Tempos de Peste

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Como nossa sociedade emergirá da crise do COVID-19? A pandemia mostra que precisamos de mais poder estatal centralizado, mais vigilância e controle? Quais são as ameaças contra nós — e como podemos nos preparar para enfrentá-las?


Alguns dias atrás, o número de mortes por coronavírus na cidade de Nova Iorque ultrapassou o total de mortes causadas pelos ataques do 11 de setembro de 2001. Quando especialistas e políticos invocam o 11/09, você sabe que eles estão tentando preparar o cenário para o choque e o temor.

Os ataques do 11 de setembro serviram para justificar o chamado Patriot Act, a prática de torturas e rendições extraordinárias (prisão de indivíduos que são levados a outro país sem respeitar procedimentos judiciais de extradição), as ocupações do Afeganistão e do Iraque; que por sua vez abriram caminho para outras catástrofes, incluindo o crescimento do Estado Islâmico. Enquanto 2977 civis foram mortos no 11 de setembro, a consequente “Guerra ao Terror” matou ao menos cem vezes mais o mesmo número de civis.

Se a comparação ao 11 de setembro demonstra algo, é que a resposta do Estado à pandemia pode ser muito mais destrutiva do que o próprio vírus. Vamos relembrar quais sãos os perigos e a lógica daqueles que comandam a resposta do Estado com o objetivo de preparar o cenário para o próximo estágio da crise antes da sua chegada. Não é inevitável que o resultado disso seja a tirania, pelo contrário: pode ser um levante popular.

Como já afirmamos há muito tempo, na virada do século, existe uma diferença entre vida e sobrevivência. Confrontando a pandemia e as disputas de poder totalitárias que a acompanham, vamos nos preocupar não só com a questão de como iremos sobreviver, mas também de como desejamos viver.

Assim como os ataques do 11 de setembro mataram centenas de milhares de pessoas em nada relacionadas a eles, estados oportunistas estão respondendo à pandemia com a tentativa de lançar uma nova era de tirania.


“As regulações da Peste também colocam uma grande sombra sobre a história política. Elas marcam a vasta extensão do poder estatal em esferas da vida humana nunca antes sujeitadas à autoridade política… Elas justificam o controle sobre a economia e a movimentação das pessoas; elas autorizam a vigilância e a detenção forçada; e sancionaram a invasão de casas e a extinção das liberdades civis. Com o argumento incontestável de uma emergência da saúde pública, essa extensão do poder foi bem recebida pela igreja e por poderosas vozes políticas e médicas. A campanha contra a peste marcou um momento na emergência do absolutismo e, de forma mais geral, promoveu um crescimento no poder e na legitimação do estado moderno.”

-Epidemics and Society from the Black Death to the Present, Frank M. Snowden


O Pior dos Cenários

Devido à globalização neoliberal e à automação, uma parcela crescente da população é simplesmente não-essencial à produção e distribuição industrial. Consequentemente, trabalhadores inundaram o setor de serviços, trabalhando cada vez mais horas para sobreviver. Em vez de renegociar os tratados de paz entre capitalistas e trabalhadores (a consciliação) que sustentaram o capitalismo ao longo do século XX1, os governantes passaram a apoiar-se em um policiamento cada vez mais repressivo, dependendo de inovações tecnológicas para manter quaisquer agitações populares sob controle. No entanto – ou melhor, por esse mesmo motivo – a agitação se intensificou em 2019 com revoltas em Hong Kong, Chile, Equador, Catalunha, Líbano, Sudão, Haiti, e diversos outros países, com novas insurreições previstas para 2020… até que o vírus rearranjou as cartas no baralho.

Essa não é uma situação propícia para enfrentar uma pandemia. Quando as autoridades consideram uma proporção crescente da população como um estorvo descartável contido apenas por uma violência sempre crescente, tais autoridades têm muito pouco interesse em nos manter vivos. Alguns, como Trump, querem estabelecer comunidades fechadas de acordo com a classe, a nacionalidade, a etnia e deixar de fora quem não se encaixa em tais categorias, à mercê desses riscos recém elevados. Outros esperam firmar um novo acordo entre governantes e governados, promovendo um mínimo de segurança a todos sob a condição de formas de vigilância e controle sem precedentes. Abaixo, iremos tratar de ambas as propostas sobre como estabilizar o poder estatal no século XXI.

Se muitos radicais parecem estranhamente otimistas sobre as possibilidades de mudança social, é devido ao fato de que as condições atuais se tornaram tão obviamente insustentáveis – não porque existe algo particularmente promissor sobre elas.

Em diversos sentidos, o pior dos cenários já está aqui. Robôs policiais já estão patrulhando as ruas do norte da África enquanto drones perseguem moradores de vilas na Itália. Viktor Orbán se tornou o ditador de fato da Hungria no coração da supostamente democrática Europa. O governo islamofóbico da Índia determinou o lockdown de 1,3 bilhão de pessoas com uma única ordem. Na Java Oriental, ordens de permanecer em casa foram utilizadas para dispersar residentes que defendiam sua região contra a destruição de uma mina de ouro – mas não para interromper as atividades mineradoras. Da China ao Peru, a pandemia ofereceu um pretexto para governantes reprimirem jornalistas por informarem o mundo sobre seu precário manejo da situação. Trump se utilizou da situação para intensificar operações militares por todo o Ocidente – não para desviar a atenção da sua forma de lidar com o vírus, como alguns acreditam ingenuamente, mas justamente porque o vírus lhe oferece uma oportunidade irresistível para avançar em sua agenda.

Tunísia: “Se você quer uma imagem do futuro, imagine um policial robô te abordando para checar seus documentos — para sempre.”

Nos EUA, o risco de exposição está explicitamente distribuído de acordo com a classe. Entregadores levam mantimentos para programadores de computador que nunca saem de suas casas; enfermeiras designadas para tratar de pacientes com sintomas de COVID-19 levam iPhones consigo para que os médicos possam se comunicar via FaceTime com os pacientes sem se expor ao vírus.

Confinados em nossas casas, somos uma base consumidora aprisionada em uma cidade operária gerida pela Amazon, dependente de companhias de telecomunicações que podem nos desconectar uns dos outros com o apertar de um botão. As autoridades estão ponderando a possibilidade de rastreio de aparelhos celulares e controle de todos os nossos movimentos com passaportes baseados em dados de saúde. Se programas como esses são colocados em prática, eles podem expandir o projeto para controlar a liberdade de movimentação de acordo também com o status legal, transformando a nossa sociedade inteira em uma prisão.

Até mesmo em nações que “achataram a curva”, medidas de emergência incluindo o distanciamento social e a proibição de grandes aglomerações devem durar pelo menos mais um ano enquanto uma vacina é desenvolvida.

“Até que se tenha uma vacina, os Estados Unidos precisam de níveis economicamente desastrosos de distanciamento social, uma vigilância digital estatal de magnitude e alcance chocantes ou um aparato de testes em massa ainda mais invasivo e cuja extensão será ainda mais chocante.”

-“I’ve read the plans to reopen the economy. They’re scary.,” -Ezra Klein

Precisamos falar sinceramente sobre o que tudo isso significa para os movimentos sociais. Além do vírus, estamos experimentando o mais brutal ataque à nossa liberdade em pelo menos uma geração. Muitas das nossas ferramentas de autodefesa coletiva dependem da concentração física em grandes números, o que torna o vírus extremamente perigoso. Mesmo que novas revoltas nos modelos da insurreição no Chile aconteçam mais adiante em 2020, oficiais de saúde pública irão julgá-las um risco epidemiológico e tentar impor um novo lockdown, provocando uma divisão entre aqueles investidos na resistência a qualquer custo e aqueles que consideram tão irresponsável o risco de disseminar o vírus que irão preferir a total rendição.

Isso nos coloca sérios dilemas. Alguns estão experimentando com carreatas, mas precisamos desenvolver uma gama muito mais variada de opções.

Enquanto eles tiram vantagem da pandemia para consolidar o poder e avançar em suas agendas, autoritários de todos os tipos também estão usando essa oportunidade para legitimar intervenções estatais invasivas como o único meio efetivo para lidar com uma crise como a do COVID-19. Precisamos derrubar seus argumentos, apresentando modelos mais convincentes e inspiradores de como responder a essa crise. Mesmo com toda a tecnologia e submissão a sua disposição, o Estado não pode reinar sem uma certa quantia de legitimidade visível e de consentimento do público. Ao mudar definitivamente da lógica da recompensa para a lógica da punição, nossos governantes estão fazendo uma aposta perigosa.


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Então o Senhor falou a Moisés, “Estenda sua mão em direção ao céu para que a escuridão se espalhe sobre o Egito – escuridão que se pode sentir.”


Forçando a Discussão

A pandemia impulsiona várias tensões que já desestabilizavam a nossa sociedade até o ponto de ruptura. Vamos olhar para cada uma delas:

Crise Financeira

Muitos têm antecipado a crise financeira por anos. A dívida tem servido para manter a economia girando – e para prender pessoas a ela – por décadas. Se as obrigações da dívida podem ser suspensas ou canceladas por decreto legislativo, se o capitalismo só funciona porque os governos continuam resgatando bancos e corporações às custas de todas a população, então em teoria, isso deveria colocar todo o sistema em questão. As formas com que a economia capitalista não atende às necessidades da maioria das pessoas – de segurança, materiais, de alegria, solidariedade e de sentido – estão agora mais óbvias do que nunca. Mas, se o distanciamento social obrigatório e as repressões autoritárias impedirem alguém de demonstrar uma alternativa possível, muitas pessoas irão responder desejando um passado imaginário onde supostamente havia uma normalidade.

Sistema de Saúde

Nos Estados Unidos, o acesso à assistência médica é há muito tempo um privilégio de alto custo; em vários estados, o Obamacare não fez diferença alguma na vida dos mais pobres. Agora está claro que a saúde dos pobres pode impactar toda a população.

Existem duas respostas possíveis a isto. Uma delas é que a nossa sociedade direcione recursos para atender às necessidades de saúde de toda a população – nos nossos termos, de acordo com as nossas prioridades. A outra é que a elite trate os riscos à saúde colocados pela população em geral como um perigo a ser administrado para a proteção dos privilegiados.

Moradia

Em todo o mundo, a especulação imobiliária e os processos de gentrificação já desalojaram incontáveis milhões de pessoas e tornaram o acesso à moradia praticamente inacessível para a maioria; não surpreende que quase um terço dos inquilinos nos EUA já não pagaram aluguel em abril. Aqueles que só podiam pagar para viver em caixas de sapatos urbanas, estão agora confinados a elas como em celas; outros estão em situação de rua ao mesmo tempo que a lei manda “ficar em casa”. A violência doméstica e problemas relacionados à saúde mental alcançaram proporções epidêmicas ao lado do vírus.

Tudo isso nos força a encarar a questão: o que é um lar? É um bem imóvel sujeito à especulação, um espaço de isolamento, uma pequena reserva do feudalismo patriarcal (“a casa de um homem é o seu castelo”)? Ou é algo diferente – o sentimento de segurança criado pela solidariedade coletiva, algo que poderia unir indivíduos e comunidades ao invés de nos separar uns dos outros?

“O lar não é um lugar fechado que nos separa em pequenos feudos a serem divididos e conquistados um por um; é a solidariedade coletiva que nós construímos no processo de defender umas às outras e intervir quando vemos algum dano sendo feito.

Isolamento Social

A pandemia confinou literalmente bilhões de pessoas em suas casas – aquelas que tem casas – mas em muitos casos isso teve um efeito inesperado, expandindo o espaço da casa como um lugar de sociabilidade, criando novas formas de intimidade e fortalecendo redes. No entanto, essa sociabilidade é quase inteiramente virtual – e isso depende de um número muito pequeno de companhias e plataformas de telecomunicações.

Nesse momento, o distanciamento social está exercendo tamanha pressão sobre as pessoas de tal forma que muitos de nós estão sentindo uma urgência desesperada de reunir em grupos, de abraçar os amigos e se encontrar com estranhos. O valor dos espaços públicos e da sociabilidade nunca foi tão claro. Se essa pressão continuar crescendo, os efeitos podem ser disruptivos ou libertadores.

Mas e se o distanciamento social continuar de variadas formas por um ano ou mais, as pessoas irão se acostumar com ele, passando a olhar com medo para as multidões, desenvolvendo agorafobia e novas ansiedades sociais? Iremos nos tornar tão habituados a conduzir nossas relações por meios virtuais que após o fim do isolamento continuaremos agindo assim mesmo quando poderíamos estar fisicamente juntos? Os algoritmos de corporações como o Facebook já exercem muita influência sobre o diálogo on-line e isso molda nossa capacidade de imaginar o que é possível. Agora que todas as nossas comunicações dependem completamente delas, será que elas terão ainda mais poder para moldar nossa imaginação?

Ecologia

A redução dos danos ao meio ambiente durante o período de confinamento na China e em vários países foi notícia em todo o mundo. Até agora, todos consideraram a catástrofe ambiental como algo além do nosso controle. Nem a democracia nem os governos autoritários foram capazes de priorizar a questão ambiental. Mas se um vírus pôde pausar a destruição ecológica, um movimento social ingovernável também poderia.

Totalitarismo

Repressão nas fronteiras, vigilância estatal, autoritarismo e a violência do Estado policial que já vinha se intensificando rapidamente antes dessa crise. As autoridades estão apostando em um jogo arriscado de “o dobro ou nada”. Neste momento, elas têm uma justificativa poderosa disputas por poder — mas se ultrapassarem os limites, toda a pressão que vem se acumulando pode explodir.

A soltura de presos de cadeias e prisões chama atenção para o fato de que ninguém deveriam estar preso em primeiro lugar. A polícia tem se apresentado como capaz de paralisar a disseminação do vírus, mas de acordo com essa lógica, seria mais seguro também tirar a polícia das ruas. É o ápice da tolice imaginar que o vírus é um adversário que pode ser combatido por meios militares em uma “guerra”, para usar a retórica de Trump; como a Hidra, cada golpe que as forças armadas direcionam a ela apenas a fortalece.

Permanece a questão se isso será verdade também para a nossa resistência.

“Fique em casa – se você puder” (ou se você tem uma). Um aviso na Cidade do Cabo, África do Sul.


Três Programas

Analisando as possíveis formas de se responder à pandemia, podemos simplificar as opções em oferta em três diferentes campos: os adeptos da morte, os apóstolos da sobrevivência e os partidários da vida.

Os Adeptos do Capitalismo – Ou Seja, da Morte

Nunca foi tão óbvio que a “vida” para o mercado representa a morte para nós. Donald Trump e outros barões da morte que nos apressariam de volta ao trabalho pelo bem de seus preciosos gráficos de barras deixaram isso suficientemente claro. O Capitalismo sempre foi um culto à morte. Vendemos todos os momentos únicos de nossas vidas por salários – transformamos florestas em campos vazios, ar puro em fumaça, água em veneno – enquanto a competição do mercado movido pelo lucro torna os ricos mais ricos e deixa o resto de nós na miséria. Nesse ritmo, iremos nos juntar em breve às incontáveis espécies que já foram extintas.

A questão não é apenas se Trump ou Bolsonaro vão nos chamar de volta ao trabalho antes que os cientistas lhe deem permissão; neste momento, em todos os lugares em que trabalhadores estão sendo compelidos ao risco de exposição ao COVID-19 para pagar aluguel, o mercado já está sendo priorizado sobre a vida humana, da mesma forma como tudo era antes da pandemia.

“Por favor Deus, mate-nos todos, se precisar, mas faça a linha subir novamente”

Enquanto subestimavam os riscos de voltar ao trabalho, nacionalistas como Trump nos EUA e Matteo Salvini na Itália usaram a pandemia para avançar em seu programa de fechamento das fronteiras, insinuando que os imigrantes chineses, africanos e latino-americanos são responsáveis pela disseminação do vírus. Na verdade, ao que parece o vírus chegou a Nova York pela Europa; os seus principais vetores provavelmente incluem a classe executiva mundial, políticos e policiais, um dos poucos grupos permitidos a se reunir em grupos e circular livremente sem o aparato de proteção adequado.

Seja essa ou não a forma como o vírus se espalha, esses são os vetores do vírus do controle – o que torna o coronavírus tão perigoso. Se não pela polícia, câmeras, tribunais e prisões, teríamos há muito tempo abolido o sistema político e econômico que cria essas enormes disparidades na riqueza e no poder. Se não fosse por essas disparidades, não seríamos forçados a continuar indo ao trabalho mesmo quando isso significa nos expor a chances estatisticamente significativas de morte, além de todas as humilhações usuais do trabalho assalariado. A distribuição desigual de recursos e poder aumenta os riscos que a população pobre enfrenta, mas também aumenta a probabilidade de que as pessoas pobres, em situação de rua e os trabalhadores sejam compelidos a fazer coisas que contribuem com a propagação do vírus.

Enquanto era irônico que o “libertariano” Rand Paul tenha sido o primeiro senador a testar positivo para o coronavírus – e muitos esperavam que o vírus o punisse pela sua arrogância de uma vez por todas – a sua infecção, como a de muitos oficiais da Polícia de Nova Iorque, é uma metáfora perfeita para o risco em que eles nos colocam. Nunca existiu nenhum risco de que Rand Paul ou Boris Johnson acabassem forçados a sobreviver sem um respirador. A sua negligência, violência e exploração são os vetores pelos quais o vírus expõe o resto de nós ao perigo de morte. COVID-19 não é um anjo vingador que irá cumprir a vingança do povo.

É fácil ser crítico quando burgueses pagadores de impostos que sem pensar financiaram mísseis guiados para assassinar pessoas no Iraque e no Afeganistão estão entrando em pânico por causa do coronavírus. Mas não sejamos displicentes com a morte. Qualquer desdém que expressarmos sobre a pandemia servirá para os empregadores que tentam menosprezar os riscos para os trabalhadores e para os políticos que preferem nos deixar morrer.2

Sim, doenças cardíacas e câncer irão matar mais do que o coronavírus este ano; o mesmo vale para as complicações do vírus HIV. Poucos tem parado um momento para pensar sobre os milhões de pessoas mortas ou desalojadas por conflitos globais, mesmo os refugiados estando entre os que serão mais fortemente atingidos pelo vírus. A maioria das pessoas aprenderam a se habituar com os custos do nosso modo de vida, incluindo o corrente assassinato-suicida de toda a biosfera pelo aquecimento global produzido pela indústria; nesse contexto, o foco amplamente difundido no coronavírus se mostra míope. Mas no lugar de nos habituar a mais uma ameaça, devemos estender a preocupação que muitos tem com a crise do coronavírus a todas as outras tragédias às quais nos tornamos tão acostumados.

Cada morte causada pela distribuição desigual de recursos na nossa sociedade é uma tragédia imensurável. Nós devemos responder uns aos outros da forma como os residentes de Ferguson, Missouri respondeu ao assassinato de Michael Brown. Enquanto capitalistas seguramente irão tentar explorar as diferenças entre os “trabalhadores essenciais”, os novos desempregados e os que já eram precários ou excluídos para nos manipular uns contra os outros, precisamos criar laços de profunda solidariedade entre aquelas pessoas colocadas em perigo pelo trabalho e aquelas em perigo pela sua falta, entre os que não podem pagar aluguel, os que estão lutando para pagar a hipoteca e também os que já estavam na rua muito antes disso. Cada um de nós é essencial.

“Contra o Vírus do Controle”. Manifestação em Berlin, Março de 2020.


Os Apóstolos da Tecnocracia – Ou Seja, Da Sobrevivência

“Enquanto a América pode ser devagar para agir em um primeiro momento, uma vez que ganha velocidade, ela pode provavelmente se igualar às capacidades de muitos dos governos autoritários, incluindo a China.”

-The Thing That Determines a Country’s Resistance to the Coronavirus, Francis Fukuyama

Demagogos como Trump precisam competir com centristas como o Partido Democrata, que querem preservar as mesmas estruturas hierárquicas, mas propõem operá-las de forma mais sensata e eficiente. Desde o New York Times até admiradores ocidentais do Partido Comunista Chinês, muitos especialistas procuraram se separar da resposta ignorante e irresponsável de Trump ao vírus, reivindicando a necessidade de medidas ainda mais rigorosas. Eles são os mais fervorosos advogados das medidas de vigilância invasivas descritas acima. Em retorno, oferecem uma melhor chance de sobrevivência àqueles que Trump entregaria à morte.

De fato, essa pandemia não mostra que precisamos de mais centralização, mais vigilância, um governo mais “forte”?

Na verdade, todas as formas de governo – da China e do Irã aos Estados Unidos – esconderam informações sobre a pandemia e atrasaram a resposta ao vírus de modo a intensificar o risco para todos. No Irã, a justificativa era manter a população calma antes de uma eleição; nos Estados Unidos, manter o mercado de ações estável pelo maior tempo possível. O problema não é que as autoridades não tiveram controle suficiente; o problema é a própria centralização do poder. Sempre que há concentração de poder nas mãos de poucos, seja uma junta militar, funcionários de um partido ou oficiais eleitos, eles irão inevitavelmente priorizar os seus próprios interesses sobre os interesses dos demais. Qualquer partido aspirante ao governo nos diz que o seu governo seria melhor que o dos outros, ou que eles poderiam fazer mais com mais poder, mas não deveríamos deixar-nos enganar por essas promessas.

Francis Fukuyama argumentou que a confiança do povo nos seus governantes é o fator mais decisivo para determinar a efetividade das respostas governamentais à pandemia:

“O que importa no final não é o tipo de regime, mas se os cidadãos confiam em seus líderes e se esses líderes dirigem um estado competente e efetivo.”

Isso erra o alvo de maneira óbvia e dissimulada: o que acontece quando há uma confiança generalizada em um governo “competente e eficaz” que não faz o que é do maior interesse de sua população?

Para anarquistas, a resposta para esse problema é bastante clara. A única coisa que pode nos manter a salvo é estabelecer meios horizontais abrangentes para a transmissão de informações queiram as autoridades ou não – para contornar a censura estatal que atrasou o conhecimento público sobre a epidemia do COVID-19 na China, por exemplo – e para sermos capazes de implementar as nossas medidas autônomas e participativas de sobrevivência, ajuda mútua e auto defesa coletiva. Se dependermos dos governos existentes para resolver nossos problemas, seremos limitados a endossar suas políticas perigosas e autocentradas enquanto depositamos nossas esperanças em esforços insatisfatórios de mudança por vias eleitorais, como a campanha por Bernie Sanders.

A alternativa à adoção de soluções tecnocráticas de cima para baixo não é celebrar a liberdade individual de forma isolada. Mas sim, investir nossa energia na capacidade de compartilhar informações e coordenar atividades internacionalmente, como anarquistas sempre defenderam. Coordenação e centralização são duas coisas diferentes.

Como outros já argumentaram, a vasta maioria do crédito para as medidas que atrasaram a propagação do COVID-19 deveriam ser destinadas às pessoas comuns que se engajaram voluntariamente ao distanciamento social e outras práticas responsáveis, não aos governos. A ação voluntária, auto organizada, motivada pela ética e não pela coerção sempre irá entregar melhores resultados. Se os recursos e o conhecimento forem distribuídos de forma suficientemente abrangente e uniforme, as pessoas serão muito mais capazes de conhecer, priorizar e considerar os riscos que enfrentam e colocam aos demais do que qualquer corpo centralizado em posse do poder de decisão seria capaz de fazer.

Em resumo, a única forma de assegurar que o sistema político irá de fato atender às nossas necessidades é se formos capazes de os reparar ou derrubar quando eles nos falham. O controle mais centralizado só torna isso mais difícil.

Isso nos leva a uma questão relacionada que será especialmente importante nos anos seguintes ao fim da pandemia. Não valeria a pena renunciar de nossas liberdades individuais se pudéssemos obter um pouco mais de seguridade e segurança em retorno? Provavelmente veremos demagogos de Centro nos oferecendo essa barganha do diabo.

Sem a liberdade de nos organizar e defender em nossos próprios termos, fora e contra a ordem vigente, não seremos capazes de defender quaisquer ganhos que obtivermos dentro dela. Mesmo se a nossa única preocupação fosse assegurar a sobrevivência nas mínimas condições materiais, renunciar a cada centímetro de liberdade nunca iria nos ajudar a alcançar tal objetivo.

O segredo público sobre centristas e tecnocratas é que eles não nos oferecem uma alternativa aos autocratas. Os seus programas sempre servem para fortalecer o aparato estatal que os autocratas utilizam contra nós. Trump herdou o poder que Obama concentrou em um único escritório executivo. No final das contas, autocracia brutal ou tecnocracia eficiente é uma falsa escolha.

Vamos concluir com algumas palavras sobre a especialização nas ciências. Até então, cientistas da área médica são provavelmente o único grupo de autoridades que passam por esse desastre intocados. Mas a indústria médica por si só nunca foi movida pelos interesses da humanidade. Idealmente, o desenvolvimento do conhecimento científico deveria ser um esforço coletivo envolvendo toda a espécie humana, não um domínio em que especialistas ditam a Verdade para todos os demais. O Capitalismo e sistemas institucionalizados de autoridade há muito interferem no desenvolvimento participativo do conhecimento, restringindo o acesso ao processo por meios como direitos de propriedade intelectual, monopólios institucionais de informações e determinando quem tem acesso ao financiamento. A razão do lucro que o mercado impõe aos pesquisadores corrompe as suas prioridades e interfere no processo de produção do conhecimento – por exemplo, empregados de estudos médicos que alugam a si próprios como ratos de laboratório para pagar aluguel não têm um interesse maior em responder às perguntas honestamente do que corporações de testes médicos cujo objetivo é o lucro.

Essa pandemia ilustrou o valor de abordagens colaborativas internacionais sobre modelos movidos pelo mercado. Praticamente todos esperam que os cientistas irão cooperar para além dos limites institucionais e nacionais para produzir uma vacina. Como em todos os aspectos de nossas vidas, precisamos de mais autonomia, mais comunicação e coordenação horizontal e não de mais hierarquia. As instituições médicas existentes não são mais adequadas para nos governar do que quaisquer instituições políticas.


twitter.com/th1an1/status/1248355378091474944

#Grécia: Nossos camaradas de #Thessaloniki junto a outras organizações #antifa estão construindo a rede de #ajudamútua “#Covid19 Thessaloniki Solidarity” no espaço social Micropolis. Ação direta por saúde e dignidade. Solidariedade é a nossa arma.


Os Partidários da Liberdade – Ou Seja, da Vida

“Em uma pandemia que privou a vida dos seus usos sociais, a vida parece ameaçar a sociedade totalmente.”

-A Comunidade Pandêmica , Nil Mata Reyes

A sobrevivência é essencial à vida, mas não é a sua totalidade. É necessária, mas não suficiente.

É suficientemente simples falar de sobrevivência; podemos defini-la em termos médicos. Falar de vida , por outro lado, é inerentemente tendencioso. Quando se fala em vida , é sempre de um modo particular de viver, um conjunto particular de relações e afetos e valores. Aqueles que se referem a “vida” como se o que pretendem expressar com a palavra fosse auto evidente sempre têm algum tipo de agenda escondida.

Quando nossos governantes tentam focar a discussão em como assegurar a nossa sobrevivência, devemos mudar o assunto para qual o tipo de vida nós desejamos levar no mundo pós-pandemia. Pode haver modelos autoritários capazes de assegurar a nossa sobrevivência de fato, mas nenhum é capaz de entregar o tipo de vida que desejamos. Se apenas pechinchamos com nossos governantes por empregos, salários e a assistência médica essencial à nossa sobrevivência, na melhor hipótese, sairemos disso com a garantia de idênticas unidades de quarentena como moradia, braceletes digitais com os nossos dados biológicos e uma inscrição vitalícia no Netflix para dopar nossos sentidos e nos distrair de vidas que fariam O Admirável Mundo Novo se parecer com On The Road. Isso é o que a maioria dos tecnocratas têm a oferecer. Nós precisamos sonhar mais alto.

Falar de liberdade é quase uma abominação no ano da peste. Liberdade é associada ao tipo de bufões reacionários que ainda acham que o vírus é algum tipo de conspiração. Mesmo assim, como argumentado acima, sem liberdade, não seremos capazes de ganhar ou defender nenhum ganho que viermos a obter em nossa qualidade de vida. Aqueles que têm o poder nunca irão nos conceder a autodeterminação em nossos próprios termos – e sem isso, estamos sob o seu controle. Precisamos mudar esse equilíbrio de poder.

Hoje, tendo sido roubadas de quase tudo que dá sentido à vida, muitas pessoas sentem que não tem mais nada com que se apegar senão a sobrevivência no mero sentido biológico. É por isso que estão dispostas a renunciar ainda mais. Mas se essa crise realmente nos leva a colocar tudo em questão, vamos lutar pelo que nós realmente queremos.

Desde projetos de apoio mútuo e greves selvagens até greves de aluguéis e revoltas prisionais, já existem movimentações corajosas de resistência ao redor do mundo. Esses esforços devem abrir caminho para redes capazes de confrontar o novo totalitarismo e derrotá-lo. As apostas nunca foram tão altas.

Perseguir a vida no lugar da sobrevivência significa agir sem garantias. Aqueles que desejam viver uma vida por completo às vezes precisam arriscar suas vidas. É o significado que está em risco aqui, ainda mais do que a segurança.

O que você quer? Testes e tratamento gratuito para o COVID-19 e para qualquer outra questão de saúde? Poder usar as máquinas da fábrica do seu patrão para produzir respiradores e não automóveis? Ter liberdade para utilizar as instalações médicas do seu trabalho de enfermeira para cuidar dos seus amigos e vizinhas que nunca puderam pagar por uma assistência médica adequada? Ter oportunidade de empregar suas habilidades e recursos e criatividade para o benefício de todos, e não só de acordo com as regras do mercado? Abolir a pressão econômica que compele as pessoas ao risco de propagar o vírus e contribui para o aquecimento global? Ser capaz de viajar para outras terras sem gentrificar as vizinhanças das cidades que você visita? Ser capaz de se reunir livremente em multidões festivas sem medo da pandemia ou da polícia? Abraçar e ser abraçado, prosperar?

Responda as perguntas para você mesma, queridas leitoras, leitores e leitorxs, e vamos encontrar motivos comuns na base dos nossos sonhos mais selvagens. Iremos nos juntar a vocês nas ruas no fim deste pesadelo – determinados a por fim em todos os pesadelos.


“Nós sempre soubemos o que queríamos, apenas pensamos ser impossível. Não é. Não só não é impossível como é a nossa única passagem segura para o futuro.”

-“How to Fall


Leituras Aprofundadas


Grafite no Chile: “Dizem que temos que lavar as mãos… Mas o Capitalismo roubou a água e especulam até o álcool em gel.”

  1. Esses “tratados de paz” incluíam o socialismo autoritário de Estado do bloco soviético, a combinação entre o acordo Fordista e redes social democratas de segurança nos Estados Unidos e Europa, e a promessa de desenvolvimento econômico no Sul Global. 

  2. Em Massa e Poder, Elias Canetti sugere que um dos desejos fundamentais dos seres humanos é o de viver mais que os seus iguais. À primeira vista, essa é uma proposição estranha; mas nos Estados Unidos, onde as relações sociais sempre foram baseadas na competição voraz, as pessoas tendem a ver o infortúnio dos outros como um ganho para si próprios. Essa é uma forma de entender um pouco da bravata com que os jovens olharam para a pandemia, que atinge especialmente os idosos e enfermos.